segunda-feira, 18 de julho de 2011

DEFICIT HABITACIONAL

DÉFICIT HABITACIONAL ATINGE 300 MIL NO RN
Madrugada de lua cheia em Natal (RN). O latir dos cães ao longe contrasta com o barulho das corujas, à espreita no morro próximo. De repente, os caminhões. Lonas, sacolas de plástico, bandeiras vermelhas. Gente. Cada família traz seus pertences, seus papelões, seus pedaços de madeira. Os móveis e eletrônicos também estão lá. Televisão, rádio, ventilador. Ao raiar do dia, é hora de arrumar as coisas, tirar o lixo que havia se espalhado pelo terreno e preparar as casas simples, de taipa mesmo, para organizar as ruas e vielas do novo acampamento. Também é hora de lembrar que, junto com a bagagem, vem também o sonho de viver melhores momentos. Eis o cenário do primeiro dia da Ocupação Anatália de Souza Alves, no Guarapes, Zona Oeste da capital, um ano atrás, em 9 de julho de 2010.
Enquanto famílias fazem ocupações como a do assentamento Anatália, no Guarapes, a capital potiguar tem 24 mil imóveis fechados Pertencente à Prefeitura do Natal, o terreno ocupado tem um hectare. Na época da invasão, um posseiro que mora próximo tentou, em vão, reaver a terra a que chamava de sua. O nome da aglomeração habitacional é uma homenagem à potiguar seqüestrada nos anos de chumbo da Ditadura Militar, levada ao DOI-Codi do IV Exército, no Recife (PE), e também ao Departamento de Ordem Política e Social, o temido Dops. A história conta que, por mais de um mês Anatália foi torturada e, por fim, assassinada (1976). Ela representa a luta pela liberdade e pelo socialismo, a mesma bandeira defendida pelo Movimento de Lutas nos Bairros e Favelas (MLB), presente em 14 cidades brasileiras e que atua em Natal há 8 anos, coordenando a ocupação de terrenos e estruturas de órgãos públicos e privados que estejam sem uso, como a do Guarapes daquela madrugada fria e enluarada. Um ano depois, eles continuam lá, querendo uma casa para morar.
Na cidade-sede da Copa 2014, que dispõe de 26 mil leitos para os turistas e que construirá, por iniciativa privada, mais seis hotéis até o mundial, 70 mil natalenses não têm uma casa para morar e vivem em condições insalubres, sem acesso a esgoto, água encanada, luz elétrica, com riscos de desabamento ou em palafitas. Deste total, 95,9% são pessoas que vivem com zero a três salários mínimos. Não há nenhuma casa destinada a esse público construído na capital, dentro do mais bem-sucedido programa do governo federal, o Minha Casa Minha Vida. Ao mesmo tempo, Natal tem 24 mil imóveis fechados, um terço dos imóveis de Ponta Negra está desocupados, a Zona Norte concentra metade da população e regiões como Nova Parnamirim cresce assustadoramente, mas áreas como Felipe Camarão, Planalto e Guarapes dispõem de muitos terrenos.

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